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Tragédia na Zona da Mata: um comparativo meteorológico de Lagoa Dourada com Juiz de Fora e Ubá

Os municípios mineiros de Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata, sofreram essa semana com eventos climáticos intensos. Já em Lagoa Dourada, muita chuva também foi registrada, mas sem nenhum dano material ou humano. Fizemos uma comparação dos dados meteorológicos registrados em nossas estações meteorológicas com os dados das duas cidades.

A comparação entre os registros pluviométricos de Lagoa Dourada, Juiz de Fora e Ubá durante o período de 22 a 25 de fevereiro de 2026 revela uma disparidade significativa na intensidade dos eventos meteorológicos. Enquanto Lagoa Dourada registrou chuvas moderadas, as outras duas cidades enfrentaram volumes históricos e catastróficos. Enquanto em Lagoa Dourada o volume acumulado em 4 dias (50,1 mm) é considerado uma chuva comum para o verão, em Juiz de Fora e Ubá os volumes foram de 3 a 4 vezes superiores em intervalos de tempo muito menores, provocando desastres naturais.

Lagoa Dourada (Estação Gamarra)
  • Intensidade: O evento mais significativo ocorreu em 24/02, com 40,5 mm. Meteorologicamente, isso é classificado como “chuva pesada”, mas comum para o verão mineiro.

  • Temperatura e Vento: No pico da chuva (dia 24), a temperatura máxima caiu para 24,5°C (uma queda de 6,6°C em relação ao dia 22). As rajadas de vento atingiram 28 km/h no dia 23, indicando a chegada da instabilidade antes da chuva principal.

  • Comportamento: A chuva em Lagoa Dourada foi persistente e bem distribuída, sem picos de intensidade que causassem danos estruturais registrados.

Juiz de Fora (Zona da Mata)

  • Evento Histórico: A cidade enfrenta o fevereiro mais chuvoso de sua história (584 mm acumulados até o dia 24), superando o recorde anterior de 1988.

  • O “Pico”: Entre 9h do dia 23 e 9h do dia 24, o INMET registrou 138,6 mm. Para se ter uma ideia, isso representa quase 3 vezes mais chuva do que Lagoa Dourada recebeu em todo o período de 4 dias.

  • Impacto: O solo saturado por um volume 340% acima da média mensal provocou mais de 20 soterramentos e o transbordamento do Rio Paraibuna.

Ubá (Zona da Mata)

  • Violência Meteorológica: Ubá registrou o cenário mais crítico em termos de intensidade horária. Os 170 mm caíram em um intervalo curtíssimo (3h30min).

  • Inundação: Esse volume “instantâneo” fez o nível do Rio Ubá subir 7,82 metros, uma das maiores inundações da história da cidade, resultando na queda de pontes e edifícios.

  • Comparação: O que caiu em Ubá em menos de 4 horas foi 3,4 vezes o volume total que sua estação em Lagoa Dourada registrou em 4 dias.


A disparidade nos dados deve-se à posição geográfica e à dinâmica do sistema de baixa pressão que se instalou sobre a Região Sudeste:

  1. Efeito Geográfico: Lagoa Dourada (Campo das Vertentes) ficou na borda do sistema. Recebeu a umidade, mas não o núcleo das células de tempestade.

  2. Convergência de Umidade: O corredor de umidade (ZCAS – Zona de Convergência do Atlântico Sul) ficou estacionado exatamente sobre a Zona da Mata, canalizando todo o potencial energético para cidades como Juiz de Fora e Ubá.

  3. Classificação do Evento: Enquanto os registros de Lagoa Dourada mostram um evento de chuva típica de verão, os registros de Juiz de Fora e Ubá entram para a climatologia como eventos extremos de tempo severo.